Edição 39 - Dezembro/2023 | Entrevista

ENTREVISTA

ENTREVISTA 

LBXXI: Pindorama ontem, hoje e amanhã. Para começar, poderia nos trazer algumas des(re)construções apresentadas por você durante a oficina, as quais abarcam as questões urgentes da contemporaneidade?

 

Fernanda Vieira: Claro! O Brasil foi inscrito em cima de um território que já possuía suas próprias dinâmicas. Em diversos espaços e movimentos, chamamos este território de Pindorama, que significa “terra das palmeiras” em Tupi. Pindorama existia antes do Brasil. Da mesma maneira que o continente de Abya Yala, que significa “terra madura”, “terra em florescimento” na língua do povo Kuna, existia antes da América. Nossos territórios foram invadidos, não descobertos. Os invasores chegaram como se nossos territórios milenares fossem uma criação recente e se acharam no direito de renomear tudo, tentando silenciar as existências e histórias indígenas ancestrais aqui enraizadas. A própria palavra “índio” é um erro do colonizador, que não apenas achou ter chegado às Índias, mas chamou os indígenas de índio, homogeneizando a diversidade de nações e culturas presentes há milênios nos nossos territórios. “Indígena” é uma palavra mais adequada, apesar de também vir da língua do colonizador, significa originário do lugar em latim. Indígena é uma palavra estratégica que une pautas comuns, mas reconhece a diversidade cultural dos povos originários. Há outros termos usados para se referir aos povos indígenas que são equivocados, como “tribo” e “puro”, por exemplo. São palavras que carregam juízos de valor que projetam os povos indígenas como presos ao século XVII.

As palavras têm poder, por isso é importante ouvir as lideranças e educadoras/es indígenas.

 

LBXXI: Você cita a diáspora indígena como um ‘deslocamento forçado’, nem sempre territorial (geográfico), mas um descolamento da identidade - o que coloca as questões territoriais como uma das lutas essenciais à retomada identitária dos povos originários. Nesse contexto, qual a importância e significado da edição e a da publicação de autores e autoras indígenas?

 

Fernanda Vieira: A primeira coisa que penso é algo que falo nas minhas turmas, sobre a diferença entre representação e representatividade. Por tempo demais os povos indígenas foram representados nas literaturas e mídias diversas, criadas por não-indígenas, de maneira fetichizada, equivocada e de forma a reforçar estruturas coloniais e estereótipos racistas. Apenas a representação, que pode ou não ser negativa e descolada da realidade, não garante representatividade. A representatividade implica em uma representação que faça ressoar as vozes e identidades de quem é representado. Aí eu destaco a retomada identitária na representatividade nas produções indígenas, que quebra com as muitas representações enviesadas feitas por não-indígenas ao longo de séculos. A demarcação de telas e mídias é fundamental para combater as estruturas coloniais que tentaram arrancar as identidades indígenas dos seus territórios e criminalizaram seus modos de pensar e existir. Nesse sentido, as publicações de autoria indígena preenchem lacunas históricas criadas pela colonização e reinscrevem a cartografia de uma Abya Yala indígena, que nunca deixou de ser indígena. Decolonizar o imaginário é parte fundamental do processo de decolonizar o continente.

 

LBXXI: Para compreender a literatura indígena parte-se de uma perspectiva relacionadas à oralidade. A oralidade é mais ou menos importante que a palavra escrita?

 

Fernanda Vieira: São tradições diferentes que não podem ser colocadas em posição hierárquica: a oralidade não é mais importante do que a escrita e vice-versa. O pensamento ocidental tenta impor a falsa noção de que a tradição escrita seria superior e mais sofisticada do que a tradição oral, o que não é verdade. Ambas têm seu espaço, suas características e sua importância. Inclusive, é importante lembrar que a escrita sistematizada nasce de uma necessidade pragmática, para o registro de acontecimentos do cotidiano. As literaturas nasceram na oralidade. O palco da palavra é o corpo, é a boca. E foi graças à oralidade que os conhecimentos indígenas foram preservados ou teriam sido queimados durante a colonização, se fossem escritos em alfabeto latino em folhas de papel-árvore-morta. E se hoje as literaturas indígenas também recorrem à palavra escrita, é mais uma tradição que acessam, sem esquecer a importância da oralidade. Por exemplo, se nos debruçarmos sobre a obra escrita de Ailton Krenak, ela parte da oralidade para o papel. A marca da oralidade na escrita é, inclusive, uma escolha estética de valorização da tradição. Independente da tradição, se oral ou escrita, é fundamental que se abram espaços de escuta para as literaturas indígenas reverberarem suas vozes ancestrais para a construção de mundos possíveis.

 

LBXXI: Como você avalia o cenário atual da literatura de autoria indígena brasileira?

 

Fernanda Vieira: Efervescente. Alcançando cada vez mais interessantes espaços de escuta. Temos Ailton Krenak na Academia Brasileira de Letras, e é a primeira vez que um indígena ocupa uma cadeira na instituição. Tivemos Eva Potiguara e Sony Ferseck entre as 10 finalistas ao 65º Prêmio Jabuti. A crescente visibilidade das literaturas indígenas vem trazendo a oportunidade de pensar mundos possíveis, que existam fora da (i)lógica colonial/capitalista que temos hoje. Mas precisamos de mais. Precisamos chegar com mais presença às bibliotecas públicas, salas de leitura, salas de aula, livrarias, premiações literárias, círculos de leitura. É urgente que consigamos desmantelar esse sistema colonial que está nos levando à ruína. E as literaturas indígenas têm um papel fundamental nesse processo.

 

LBXXI: O que há de contemporâneo na literatura indígena no Brasil?

 

Fernanda Vieira: Primeiro eu queria destacar que não devemos esperar apenas um tipo de literatura indígena, mas vários. Por isso falamos literaturas indígenas no plural, para ressaltar a multiplicidade de povos e de formas de fazer literário. E que não devemos limitar as literaturas indígenas como monotemáticas, já que podem falar sobre qualquer coisa.

Sobre o que há de contemporâneo na literatura indígena pindorâmica, os sistemas de conhecimento indígenas são ancestrais, mas sempre foram vanguarda. Desde antes da invasão. Hoje o ocidente discute algo que os povos originários vêm gritando há séculos: a Terra é um organismo vivo da qual fazemos parte; é necessário viver suavemente; é necessário viver uma identidade que é individual e coletiva ao mesmo tempo; a Terra não é um recurso e o modo de vida colonial/capitalista é insustentável e levará ao fim da humanidade. Inclusive, essa categoria de “humanidade” separada da natureza também é parte da (i)lógica colonial. No mais, as escritoras e os escritores indígenas, como quaisquer outros escritores, partem das suas tradições, do que as/os incomodam, dos seus interesses e do que observam para a construção da literatura.

 

LBXXI: Quais autoras e obras você recomendaria para apresentar essa literatura para quem ainda não conhece?

 

Fernanda Vieira: Nossa! Tantas! E já peço desculpas às parentas e aos parentes que não vou citar aqui. Mas eu presto reverência às nossas mestras Eliane Potiguara e Graça Graúna, com quem aprendo sempre e tanto. E também à brilhante educadora e multiartista Márcia Wayna Kambeba, presença constante nas minhas salas de aula. E recomendo, claro, Daniel Munduruku e Ailton Krenak. Inclusive, hoje vi um vídeo em uma rede social de uma premiada escritora indígena de Turtle Island (parte norte de Abya Yala), lendo uma parte da obra traduzida para o inglês de Ailton Krenak. Achei incrível a troca continental. Somos todas/os parentes. We are all related. E temos uma referência incrível para quem quer buscar literaturas, teses e dissertações indígenas, que é a Bibliografia das publicações indígenas do Brasil. O projeto, coordenado pela bibliotecária e pesquisadora Aline da Silva Franca, pelo escritor Daniel Munduruku e o pelo bibliotecário e pesquisador Thulio Dias Gomes, é uma bibliografia colaborativa que busca listar as publicações de escritoras/es indígenas do Brasil.

 

LBXXI: Na sua opinião, qual a visão predominante disseminada no ambiente escolar e qual o lugar dos saberes indígenas no sistema de educacional brasileiro atualmente?

 

Fernanda Vieira: É difícil falar de maneira generalista, mas ainda temos uma presença incipiente das literaturas e culturas indígenas nas escolas, mesmo com a Lei nº 11.645/2008, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional (LDB, Lei nº 9.394/96), modificada pela Lei nº 10.639/03, e que torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, público e particulares. Felizmente, muitas escolas não trazem mais a figura de um indígena preso ao passado e não fazem mais “homenagens” fazendo cocares de papel ou pintando as crianças. Mas só não reforçar esses estereótipos preconceituosos não é o suficiente. É preciso um trabalho anticolonial ativo, que inclua as culturas e histórias indígenas ao longo de todo o período letivo, não apenas em datas específicas. E que inclua também o ensino de línguas indígenas nas escolas, porque somos um país plurilíngue. Há a necessidade de revisar os currículos universitários para incluir epistemologias e artes indígenas, especialmente nos cursos de formação de professores. É claro que há muitos profissionais atuando firme para levar as literaturas e culturas dos povos originários para as salas de aula e para espaços não-escolares de educação, mas esse esforço precisa ser amparado por políticas públicas. As epistemologias indígenas contribuem para responder a um mundo em estado de grave crise ambiental e é urgente que esses sistemas de conhecimento estejam presentes dentro e fora dos ambientes escolares.  

  

LBXXI:  Poderia comentar sobre a importância e os impactos gerados em diversos setores da sociedade a partir dos projetos que criou e coordena - o site  ikamiaba.com.br voltado para as Literaturas Indígenas de Abya Yala (continente americano), e do grupo de pesquisa ALDEIA - Artes, Linguagens, Decolonialidades e Epistemologias Indígenas, Afrodiaspóricas e de África (CNPq)?  

 


Fernanda Vieira: A ideia com os projetos é contribuir para a disseminação das literaturas, artes e epistemologias indígenas, como também de África e afrodiaspóricas, e em reunir pessoas interessadas em construir e contribuir neste mesmo sentido. Não sei se me atrevo a pensar sobre a importância e o impacto dessas iniciativas, que são espaços coletivos. Espero que os projetos colaborem para a criação de espaços de escuta, de esperançamento e de imaginação radical de mundos possíveis. Porque se o futuro não for Ancestral, ele não será. 

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