Edição 42 - Março/2024 | Tema

O sertão múltiplo

Ilustração: Fernando Siniscalchi

            

     Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações?

Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio.

 

            Tudo começou com um gentil convite de Pedro Marques, professor, poeta e pesquisador, coordenador do Projeto Literatura Brasileira no XXI, parceria da UNIFESP com a SP Leituras. Ele convidou a mim, Susana Souto, pra dar uma oficina de escrita a partir da reflexão acerca do sertão na literatura brasileira contemporânea. Sugeri, então, que a oficina fosse ministrada em parceria com Joel Vieira, pesquisador, professor e poeta indígena Katokinn, meu orientando de doutorado aqui no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal de Alagoas, oriundo do sertão de Alagoas, assim como eu.

Desde o início, os encontros foram pensados como um espaço de troca de ideias e experiências de leitura e escrita, tendo como fio condutor a reflexão acerca do sertão na literatura, em especial, na contemporânea de autoria indígena, ainda que recortes cronológicos na literatura sejam difíceis, uma vez que tempos, línguas, culturas se encontram e misturam tempos e espaços no texto literário. Além disso, nós partilhamos a noção de que a escrita se faz em contínua reelaboração de uma memória em que estão entrelaçadas diversas referências: literárias, musicais, cinematográficas, cotidianas... Partimos do princípio de que a escrita do texto literário não se dá a partir de uma teoria do dom, em que o/a autor/a é uma espécie de escolhido por uma divindade para receber essa coisa misteriosa chamada talento, que o/a coloca acima dos mortais. Numa perspectiva dialógica, escrever é inscrever-se em uma longa cadeia de enunciação, como nos ensina Bakhtin (2003).

Essa escrita inclusiva, desdobrada, multiplicada, fala-nos sobre a relação da arte contemporânea com a memória, no sentido que lhe atribui Jacques Le Goff, como herança, “[...] um conjunto que de certo modo se nos impõe (uma herança recebe-se, não se cria); e essa herança obriga a um esforço, para aceitá-la, para modificá-la ou para rejeitá-la, quer a nível coletivo quer a nível individual” (1985, p. 21).

Inicialmente, apresentamos um breve panorama do sertão na arte brasileira de diversas épocas, gêneros e movimentos, destacando as múltiplas imagens desse espaço elaboradas em poemas, contos, romances, canções, filmes, peças de teatro. Todos os encontros buscaram destacar, em diálogo com as pessoas inscritas na oficina, a constante recriação desse espaço, ao mesmo tempo geográfico, simbólico, histórico, que tem sido constantemente recriado no Brasil, em toda a nossa longa tradição literária, na qual aparece pela primeira vez na Carta de Caminha e certamente foi retomado em algum texto escrito hoje. Relembramos textos canônicos que ficcionalizam o sertão em prosa e poesia: José de Alencar, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, entre outros.

Em seguida, discutimos como a literatura envolve condições de produção, circulação e recepção, enfatizando que estamos em um momento em que houve um aumento significativo no acesso à escrita e a leitura no Brasil. Temos, desde a segunda metade do século XX, um público leitor muito diversificado de poesia, romance, conto... Esse público passa também a escrever e publicar de modo sistemático, no século XXI, em especial com o barateamento das formas de reprodutibilidade do impresso e mais ainda com o advento da internet, que coloca em cena outras possibilidades de elaborar, fazer circular e ler textos, inclusive, literários, além de articulá-los mais facilmente com imagens e sons. Acrescentamos ainda que a entrada na universidade de novos atores sociais, com a política de cotas para negros e indígenas, instituída nos governos do PT, também altera a dinâmica da pesquisa na área de literatura, e não só, no Brasil, assim como coloca em xeque a existência de um cânone marcadamente branco e masculino.

Os diálogos indicaram que tínhamos escolhidos um bom caminho para percorrer o sertão. As falas recortavam/recordavam leituras, experiências, memórias de infância, memórias da migração que levou muitas famílias do sertão no Nordeste para grandes centros urbanos, como São Paulo. As discussões, centradas em textos, em prosa e poesia, mobilizaram diversas imagens de sertão, promovendo também uma reflexão acerca da multiplicidade de falares que constituem a nossa língua, bem como múltiplas referências culturais, de comidas, de danças, de narrativas, literárias e também familiares.

A participação de Joel Vieira foi fundamental para abordar as múltiplas figurações do sertão da literatura brasileira em verso no século XXI, sob uma perspectiva de ampliação da autoria literária, dando centralidade para autores e autoras indígenas situados/as no Nordeste brasileiro, com uma significativa contribuição para as diversas manifestações artísticas brasileiras, bem como para o pensamento brasileiro, a partir de ensaístas como Ailton Krenak, recentemente eleito como primeiro indígena para a Academia Brasileira de Letras, Graça Graúna, Daniel Munduruku, Márcia Kambeba, entre outros. Pesquisador, professor e poeta, Joel tem direcionado suas pesquisas para a reflexão acerca da autoria indígena em diálogo com o cânone da literatura brasileira. 

Escolhemos, para os nossos encontros no verão de 2024, ler e discutir textos de autoria indígena, que ampliam a multiplicidade do que entendemos por literatura brasileira. São textos elaborados em língua portuguesa, e não em línguas indígenas, tendo em vista que “[...] escritores indígenas (nascidos em aldeias, florestas, entre outros) se apropriam da língua do colonizador, aqui ‘a portuguesa’, para traduzir a alma, a cultura e a literatura indígena” (KRENAK, 2019, p. 336). Esses textos, poemas (narrativos e líricos) e contos são atravessados pela presença da oralidade. Como escreve Márcia Kambeba:

 

Na cultura indígena mantemos nossa narrativa oral, mesmo que a escrita tenha uma importância fundamental na transmissão dos saberes. Nas rodas de conversa ouvem-se narrativas contadas e recontadas pelos mais velhos com direito à repetição, para melhor assimilação e entendimento (2018, p. 10).

 

Em diálogo com obras escritas em distintos períodos, refletimos sobre os modos como o sertão foi e continua sendo uma fonte inesgotável de temas, personagens, enredos, para a arte brasileira. Os/as participantes a elaboraram textos criativos, em verso e prosa, sobre esse tema amplo e múltiplo, a partir da reescrita das obras lidas e também da reflexão acerca das relações tensas e densas entre o sertão e o espaço urbano, relações inscritas em suas memórias. 

            No processo de leitura e escrita, os/as participantes refletiram acerca da palavra “índio”, que apaga a diversidade de povos, línguas culturas dos povos originários, como Márcia Kambeba (2018) mostra nos versos do poema abaixo:

“Índio” eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé
.

Entre muitas autoras indígenas produzindo hoje no Brasil, Joel Vieira selecionou poemas de Graça Graúna, pseudônimo de Maria das Graças Ferreira,  e os projetou, fazendo, em seguida, uma breve análise e convidando outras pessoas a falar também sobre suas experiências de leitura desses, como definidos pela autora, quase haikais:

Pássaro-preto
longe do azul à margem
dor-em-dor, saudade
(Graúna, 2021).

Final de tarde
lá, bem dentro da mata
a graúna dorme
(Graúna, 2021).

            Graça Graúna é uma indígena potiguara de São José do Rio Campestre, RN. Escritora, poeta e crítica literária, é graduada, mestre e doutora em Letras pela UFPE e pós-doutora em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela UMESP. Publicou Canto mestizo (1999), Tessituras da terra (2000), Tear da palavra (2001), Flor da mata (haikais, 2014). Participa de várias antologias poéticas no Brasil e no exterior e é responsável pelo blog Tecido de Vozes. Os poemas projetados estimularam uma participante da oficina a escrever também haikais. Vale aqui evocar Bakhtin:

 

Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (2003, p. 280)

 

Foi, então, destacada a confluência de distintas tradições e gêneros, no caso uma forma poética japonesa, de longa duração foi apropriada e transformada por uma autora indígena, em um movimento que nos fala da complexidade e da diversidade da cultura brasileira, apreendida pelo movimento da escrita literária. Uma autora pertencente a um povo originário, que habitava esse território antes da chegada dos invasores portugueses, dialoga com a tradição japonesa, o haikai, que é derivado do waka, uma forma surgida no século VII no Japão, que tem entre os seus principais nomes o poeta Matsuó Bashô, trazida para o Brasil por imigrantes que fugiram de guerras em busca de condições mais dignas de vida e aqui participam da formação étnica e complexa de um país de dimensões continentais, que tem uma tradição de receber povos de distintas origens, línguas continentes, culturas.

Outra autora abordada foi Eliane Potiguara, escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara, que nasceu em 29 de setembro de 1950 na cidade do Rio de Janeiro. Neta de avós migrantes nordestinos, como sempre gosta de enfatizar, é formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio ambiente pela UFOP. Eliana Potiguara é também contadora de histórias.

Seus poemas, muitas vezes tratam das relações entre os espaços rurais e urbanos, destacando os processos migratórios que fizeram uma parcela significativa da população brasileira se deslocar para grandes centros urbanos em busca de melhores condições de trabalho, como o poema abaixo:

PANKARARU

Sabe, meus filhos...
Nós somos marginais das famílias
Somos marginais das cidades
Marginais das palhoças...
E da história?

Não somos daqui
Nem de acolá...
Estamos sempre ENTRE
Entre este ou aquele
Entre isto ou aquilo!
Até onde aguentaremos, meus filhos?...
(Potiguara, 2019, p. 63).

Essas relações foram bastante discutidas na oficina, pois muitas pessoas que habitavam grandes centros urbanos eram filhas e/ou netas de migrantes nordestinos, principalmente do sertão. Acreditamos que relação dialógica instaurada permitiu a produção de textos de diversos gêneros, conto, poema narrativo, poema lírico e crônicas, que revelam a permanência desse tema, com múltiplas ressonâncias, na memória individual e coletiva dos/as habitantes desse país.

            A partir do livro Futuro ancestral, de Ailton Krenak, foi pensada a centralidade dos rios em nossa história, memória e literatura, desde Grande sertão: veredas, em que a palavra “rio” compõe um dos nomes do narrador: Riobaldo, passando pelo percurso de Severino retirante, que segue o curso do Capibaribe, em seu processo migratório, até a morte dos rios nas metrópoles brasileiras, transformados em grandes esgotos. Como nos lembra Krenak, os seres humanos não estão acima da natureza, somos parte da natureza, somos tão importantes como rios, florestas, outros bichos, convocando-nos a aderir a seu pensamento insurgente, para aprendermos a “pisar suavemente na terra”, a nos maravilharmos de novo com nosso corpo que se expande para além dos limites da nossa anatomia individual e se projeta para outros seres com os quais vivemos cotidianamente, num tempo em que passado, presente e futuro se misturam: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui” (KRENAK, 2022, p. 11).

O acompanhamento e apoio técnico sempre muito gentil, atencioso e qualificado de Velber Thiago Alves de Melo e Lilian Cortez foi fundamental para a realização da oficina. Registro aqui nosso agradecimento. Esperamos que esses quatro encontros, realizados no verão de 2024, desenhem veredas múltiplas na memória dos seus participantes, assim como desenhou na nossa, e possam impulsionar mais e mais escritos criativos e também críticos sobre o sertão e suas figurações na literatura brasileira, esse espaço simbólico em que reelaboramos nossas experiências, seja individual, seja coletivamente. Desejamos que essas leituras possam nos fazer acionar uma vasta memória, atravessada por tempos, tempos, culturas, apagamentos e esquecimentos, que a arte incorpora, enfrenta e elabora de múltiplas formas.


Por Susana Souto e Joel Vieira

 

Referências


BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal, 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
CALVINO, Italo. Seis Propostas para o próximo milênio: lições americanas. Trad.: Ivo Cardoso. São Paulo: Companhia das letras, 1990
GRAÚNA, Graça. Fios do Tempo: (quase haikais). Recife/PE: Baleia Cartoneira, 2021.
KAMBEBA, Márcia Wayna. Ay Kakyri Tama: eu moro na cidade. São Paulo: Pólen, 2018.
KAMBEBA, Márcia Wayna. Literatura indígena: da oralidade à memória. In: DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Org.). Literatura Indígena Brasileira Contemporânea: Criação, Crítica e Recepção. Porto Alegre, RS: Editora Fi, p. 39-44, 2018.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Cia. das Letras, 2022.
LE GOFF, Jacques. História e memória.  Trad. Irene Ferreira e outros. Campinas-SP, 2003.
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. 3ª ed. Rio de Janeiro: GRUMIM, 2019.

 

 

 

 

      

Sobre os ministrantes:

Susana Souto Silva: Professora associada da Fale/UFAL, onde atua na graduação e na pós-graduação. Doutora em Estudos Literários (UFAL, 2008), com pesquisa sobre Glauco Mattoso. Mestre em Literatura Brasileira (USP, 1999), com trabalho sobre Clarice Lispector. É líder do grupo Poéticas Interartes. Organizou os livros  Literatura, Arte e Feminismos (Ed. UnB, 2021) e Literatura, estética e revolução (Ed. UnB, 2018), com Adriana de Fátima Alexandrino Lima Barbosa (UnB), Trilhas do humor na literatura brasileira (EdUFAL, 2012), com Herbert Nunes de Almeida Santos (IFAL), e o Dossiê Glauco Mattoso, da Revista Texto Poético (ANPOLL, 2017), com Steven Butterman (University of Miami). Publicou capítulos de livros e artigos em revistas acadêmicas. 

 

Joel Vieira da Silva Filho é indígena Katokinn. Professor da rede pública estadual de Alagoas, é graduado em Letras/Língua Portuguesa e mestre em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com trabalho intitulado Narrativas ancestrais de Auritha Tabajara e Eliane Potiguara: memória, cosmovisão e polifonia nas literaturas indígenas, publicado em livro (Editora Ufal 2023). Atualmente, é doutorando na mesma instituição. Desenvolve pesquisa na área de literatura indígena contemporânea, com ênfase em autoria de mulheres, relacionando memória, identidade e ancestralidade, com bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Alagoas/FAPEAL. Publicou artigos acadêmicos e capítulos de livro. Integra os Grupos de Pesquisa Poéticas Interartes.

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