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Publicações | Crítica

A hora e a vez do videoclipe LGBTQIA+ no Brasil

Ilustração: Fernando Siniscalchi. Inspirada na obra "Retrato de Adele Bloch", de Gustav Klimt.

Não mais sob o controle quase exclusivo da Rede Globo, com os “clipes do Fantástico” dos anos 1970 e 1980, nem tampouco concentrado demais, como a partir da década de 1990, nas mãos de realizadores sudestinos plenos de capital social no campo de produção audiovisual, o videoclipe brasileiro tem se diversificado e florescido nessa segunda década do século XXI. São fatores para isso, a acessibilidade aumentada das tecnologias digitais de filmagem e edição, a disponibilização gratuita de vídeos musicais em plataformas como o Youtube ou Vimeo, assim como a amplificação alcançada pelo compartilhamento nas redes sociais. Da TV para a Internet, o clipe brasileiro faz mais do que apenas sobreviver, ele se revitaliza, e há, nessa verdadeira dinamização, o papel marcante de uma leva de artistas assumidamente pertencentes à comunidade LGBTQIA+. A oficina “O lugar LGBTQIA+ no videoclipe brasileiro contemporâneo” – por mim ministrada em cada sábado de abril de 2021 – foi inspirada justamente pela presença audaciosa dessas instâncias realizadoras. A audácia de não somente partir de pautas de identidade de gênero e orientação sexual pouco presentes em clipes nacionais de décadas anteriores, mas também de o fazer em direção à interseccionalidade com outros tantos marcadores de identificação, a exemplo de etnia/raça, origem geográfica, classe social, corporeidade etc. Desse modo, ao tensionar, questionar e/ou contestar a cisheteronormatividade, esse segmento da produção videoclípica nacional coloca em xeque outras formas estruturais de privilégio e discriminação.

Não é pouco relevante que todo esse potencial esteja aliado ao caráter massivo, comercial e popular do formato videoclipe, especialmente entre jovens. Nesse sentido, a oficina esteve aberta para pessoas a partir dos 16 anos, buscando aguçar um olhar analítico derivado da articulação dos seguintes eixos: o esclarecimento de conceitos importantes relativos a questões genérico-sexuais; a identificação dos estilos predominantes de obras presentes em extensa playlist, que foi elaborada para a oficina; a anotação cuidadosa dos principais elementos textuais do clipe selecionado pela/o participante e, finalmente, a pesquisa da trajetória de artistas em frente às câmeras ou de suas/seus parceiras/os por trás delas.

Apesar do alcance do meio e da urgência do tema, o videoclipe como um objeto de análise ainda é algo desafiador, que talvez assuste, no momento do empreendimento interpretativo, por aliar brevidade de duração a arquitetura condensada e intricada de significados textuais, contextuais e intertextuais. Ainda assim, o leitor do site pode conferir o resultado em duas análises que publicamos aqui. Coincidentemente, ambas escolheram, como objeto de seus textos, um mesmo videoclipe, "Oração". A obra de 2019 foi dirigida por Sabrina Duarte para a cantora Linn da quebrada, que se responsabilizou pelo roteiro e direção artística. Realmente, é difícil imaginar uma artista mais emblemática das interseções identitárias tratadas em nosso percurso para o projeto.

Por Rodrigo Ribeiro Barreto

Veja, a seguir, as duas análises produzidas como resultado da oficina “O lugar LGBTQIA+ no videoclipe brasileiro contemporâneo”, ministrada em abril pelo professor Rodrigo Ribeiro Barreto, dentro da programação da Biblioteca Parque Villa-Lobos.

Juliana Protásio

Thiago Vinicius Caetano Serafim

Rodrigo Ribeiro Barreto é professor-adjunto da Universidade Federal do Sul da Bahia, no campus de Porto Seguro, com atuação na área de Humanidades e Artes. Na UFSB, ele ministra aulas nos seguintes cursos: Bacharelado Interdisciplinar de Humanidades; Licenciatura Interdisciplinar de Ciências Humanas, Sociais e suas Tecnologias e Som, Imagem e Movimento. 




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