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Publicações | Criação Literária

A leitura e a construção de sentidos

Ilustração: Fernando Siniscalchi

Desconheço pessoas que não gostem de ler, que não gostem de verdade de ler. Sei de pessoas que se recusam a ler textos por obrigação em espaços de educação formal; porém na minha experiência docente, quando textos são lidos e analisados sem preconceitos estéticos, o que presencio é a leitura ativa, a leitura apaixonada, a leitura que faz sentido!

E foi com esse olhar que, ao ser convidada para mediar uma oficina de leitura para pessoas de origens e idades diferentes, o entusiasmo me tomou e aceitei a tarefa! A Oficina “ O texto desvendado” aconteceu em outubro, mês que é significativo para a literatura e a leitura no Brasil. É neste período que se comemoram o Dia Nacional da Leitura (12/10), a Semana Nacional da Leitura e da Literatura (11 a 17/10) e o Dia Nacional do Livro (29/10). Além dessas celebrações, em outubro lembramos também do aniversário de nascimento de um dos maiores autores brasileiros Carlos Drummond de Andrade (31/10). 

Mas o que é mesmo ler? Dependendo da concepção de leitura, ler pode ser buscar informações na superfície textual, tendo as fronteiras das palavras como início e fim do texto. Uma concepção meio “fria” para uma atividade tão significativa quanto a leitura! Para outros olhares, ler pode ser uma atividade por meio da qual se busca encontrar “o que o autor quis dizer” tateando caminhos um pouco nebulosos para se chegar a um ‘desejo do autor’. Atividade ingrata, pois como se chega ao objetivo de um autor, em determinados textos, muitas vezes distante no tempo e no espaço?

Em nossas reflexões, ler diz respeito a um processo dinâmico em que os sentidos de um texto são construídos tomando como base os elementos linguísticos e as estratégias textuais inscritas por um autor, passando pelo conhecimento de mundo e pelo conhecimento histórico do leitor. Nessa concepção, os sentidos de um texto são elaborados “dialogicamente”, quer dizer, por meio de um diálogo, por meio da interação (cá entre nós, uma conversa mesmo!) entre autor-texto-leitor. Nosso olhar toma o texto como um lugar em que atores sociais são construídos dialogicamente. 

Ainda não está muito claro nosso olhar sobre o que é ler? Para ilustrar essa concepção dialógica de leitura, as reflexões que os oficineiros produziram ao longo dos contagiantes encontros que fizemos são os melhores exemplos. O trecho que segue faz parte da resenha que a oficineira Jaiane Batista elaborou sobre “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus

   “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” É com essa frase que eu começo o meu relato, não por acaso, não para causar impacto, mas, por ter vivido, assim como a Carolina, em uma favela, morado em um barraco feito de madeiras, o meu próprio quarto de despejo. (...) Foi como se eu conhecesse a autora, como se eu estivesse ali, ao seu lado. Eu era sua filha Vera, sonhando com dias melhores, me alegrando com sapatos doados e até menores que meus pés, sentindo o aperto que aquilo causava em meus dedos, mas feliz por ter algo para calçar. Eu era a própria Carolina, correndo nas ruas frias de São Paulo, catando latinhas, para vender e ajudar minha mãe a comprar nosso pão.

Alguns podem pensar que o fato de autora e leitora terem vivido muitas dificuldades, em épocas diferentes na mesma cidade, aproximou-as... e é verdade! Por meio das experiências vividas e compartilhadas a identificação pode se dar. Mas foi na leitura ativa que esses laços se estabeleceram!

Há outro exemplo que ajuda a ilustrar esses diálogos que leitores e autores constroem por meio do texto ainda que suas experiências de vida sejam bem distintas. O oficineiro Iago Emmanuel escreveu uma resenha sobre a obra “A amante de Freud”, de Karen Mack e Jennifer Kaufman

“Além disso, outra coisa que me chamou a atenção foram as palavras em diversas línguas presentes no texto, como pronomes de tratamento em alemão para indicar quem fala e com quem se fala, alguns exemplos disso são:”– Herr Doutor, minha patroa…” (p.06) aonde “Herr” significa senhor, “– Fomos sim, Fräulein” (p.06) aonde “Fräulein” quer dizer moça e “Alguém ajude Tante Minna...” (p.182) onde “Tante” significa tia. (...) Além das diversas línguas empregadas, gostaria de dizer que, no nosso bom e velho português por sua vez, aparecem palavras ou expressões que eu não estava acostumado a ler, ou que tive o primeiro contato com elas. Mas, como bom leitor que devemos ser, recorri a outro livro que meu auxiliou na compreensão, fiz anotações das palavras e seus significados...”

Essa passagem evidencia que o leitor busca construir sentido(s) para o texto, para as palavras e acaba por aproximá-los de seu mundo, trazê-los para seu baú de conhecimentos. Esse tipo de ação – traduzir palavras ou buscar os sentidos de palavras no dicionário – é dialogar, é conversar, é interagir por meio da leitura!  É demais, né? E quando o leitor ou a leitora já leu uma determinada obra e se deixa “reapaixonar”, entre outros bons motivos, também por causa da capa? Foi o caso da oficineira Nirlei Oliveira que é apaixonada por Guimarães Rosa e elaborou uma resenha em que traz para “a conversa” também o artista plástico Bispo do Rosário:

Tempos conturbados pedem leituras ou releituras de obras que nos façam refletir, e assim foi reler Guimarães Rosa e a sua obra monumental e poética “Grande Sertão: Veredas”. Esse foi o meu desafio, nesta quarentena! Confesso que comprei esta edição, unicamente pela belíssima capa, mesmo conhecendo o conteúdo, a ilustração da capa me seduziu pela composição do bordado notadamente inspirada em um grande artista plástico brasileiro Bispo do Rosário, conhecido por suas obras em várias exposições e por sua história de vida. A genialidade une Rosa e Bispo, ambos contadores de estórias em linguagens e universos de configurações complexas.

Há outros tantos belos e bons exemplos que ilustram o que chamamos de leitura e construção de sentidos para mostrar neste espaço, mas prefiro convidá-los a ler as resenhas e as reflexões produzidas pelos participantes ao longo de nossa oficina. Os encontros também tiveram como ponto de partida o diálogo entre os oficineiros e o respeito ao conhecimento que todos trazem em sua história como leitores. Todos os participantes possuem uma história com a leitura, seja com a leitura literária seja com a leitura dos criativos textos do dia a dia como memes, charges, tirinhas... e a análise desses gêneros também foi contemplada. Para finalizar, é relevante registrar que nossas discussões tomaram por base uma das obras na qual a grande pesquisadora Ingedore Villaça Koch aborda, explica o que é texto. E com palavras dela, encerramos nossa conversa:  

(...) se você pensar o texto como o lugar de constituição e de interação de sujeitos sociais, como um evento, portanto, em que convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais (Beaugrande, 1997) (...) Então você compreenderá que o texto é um construto histórico e social, extremamente complexo e multifacetado, cujos segredos (quase ia dizendo mistérios) é preciso desvendar parar compreender melhor esse “milagre” que se repete a cada nova interlocução. (...)

Por Lilian do Rocio Borba

Veja a seguir uma seleção de textos produzidos como resultado da oficina "O texto desvendado”, ministrada em outubro pela professora Lilian Borba, dentro da programação da Biblioteca Parque Villa-Lobos:

Eduarda Mendes de Oliveira Gomes - Uma constelação para amar

Evelyn Sebastião - Descrição dos personagens no romance “A falência”

Iago Emmanuel - A amante de Freud

Jaiane Batista - Resenha do livro: "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus

Nirlei Maria de Oliveira - O Manto da Apresentação: bordados das linguagens de Bispo do Rosário e de Guimarães Rosa

Raiany P. Gremes - Humanização para além dos muros da prisão

Lilian do Rocio Borba é graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (1992), com doutorado em Linguística, na área de Sociolinguística, pela Universidade Estadual de Campinas (2006), e estágios de pós-doutorado também pela Universidade Estadual de Campinas (2010 e 2014). Pesquisa sobre os africanos e a formação do português brasileiro.

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