/ governosp

Publicações | Criação Literária

Literatura pode ser cura?

Ilustração: Fernando Siniscalchi

Me peguei aqui pensando num meme que li salvo engano no fim do primeiro mês de pandemia. (Se nunca foi simples, o tempo por esses dias se mede com ainda mais dificuldade do que outrora.) Pois bem, nesse meme perdido, o autor ou autora, se é que meme tem autoria, dizia ter descoberto, nos dias em que fora obrigado (ou obrigada) a ficar em casa, que podia muito bem passar sem ir ao bar, sem frequentar salão de beleza, sem ir à praia ou ao parque — não podia, porém, passar sem um livro. Para quem gosta de ler, isso não é nenhuma novidade, mas mesmo as certezas precisam de confirmação de quando em vez. 

Os livros expandem os limites no momento mesmo em que estes foram radicalmente restringidos (pelo menos para algumas pessoas). Nenhuma fronteira geográfica precisa ser respeitada e se pode dar a volta ao mundo em muito menos do que 80 dias. Mas que inocência, não? O que são fronteiras geográficas nacionais diante da possibilidade de deixar a Terra e imaginar outros mundos? Sequer o tempo presente, por mais implacável que se queira, impõe restrições. Vários futuros, utópicos ou distópicos, pouco importa, foram construídos e estão prontos para serem habitados, assim como passados foram recuperados dos esquecimentos ou reinventados, para bem e para mal, importante sempre o julgamento crítico do leitor. 

Os livros que nos desconectam do aqui e do agora, sem maiores pretensões do que nos ajudar a atravessar algumas horas que teimam em não passar, são excelentes remédios, desses que se consomem sem prescrição. Há outros, contudo, mais amargos, dolorosos até, mas nem por isso menos necessários. Não é porque o mundo às vezes mais parece um amontoado de pragas bíblicas — pestes, cataclismas, mortes de inocentes — que o escape é a única saída. Às vezes os livros que nos desassosegam nos ajudam a ver mais longe, a dar forma a algo que sentíamos e que ainda não sabíamos como tornar concreto, o que não deixa de ser, ilusões à parte, um primeiro passo num processo que pode ser ele mesmo terapêutico. 

Por sinal, falando em terapia, não é de se admirar que alguns dos conceitos mais importantes da psicanálise tenham sido formulados por meio de histórias que sobreviveram porque foram preservadas nos objetos que chamamos livros. Não é apenas o terapeuta que é, antes de tudo, um perspicaz crítico literário das narrativas que construímos sobre nós mesmos; se lidos com o cuidado que merecem, os livros dizem muito mais da gente do que nós dizemos deles. Quantas vezes não me peguei rindo ao ler algo que, em qualquer outra circunstância, eu muito provavelmente acharia grotesco? Ou com olhos marejados, um tanto relutantes em se entregar, diante de uma coisa aparentemente boba, que eu sequer sabia que me tocava, mas que revela muito de mim?

O tipo de remédio que os livros são, mais leves ou amargos, isso depende de nós, seus leitores. O certo é que eles podem ser ambos, e o melhor mesmo, eu realmente acho, é nos entregarmos de espírito aberto. 

Por Rodrigo Soares de Cerqueira


Veja, a seguir, textos selecionados e produzidos durante a Oficina Arte poética: demência ou sobrevivência, realizada por Fábio Martinelli Casemiro, na Biblioteca Parque Villa-Lobos em setembro de 2020:

Lucas Lins - Bloquinho

Maria Aparecida A. Fontenele - Vértebras da consciência

Nirlei Maria Oliveira - Dizeres de amor

Nívea Lopes - Bêbado

Rodrigo Soares de Cerqueira, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, é autor de "Crítica e memória: um estudo dos textos memorialísticos de Antonio Candido". Atualmente, é Professor Adjunto de Literatura Brasileira na Unifesp, Campus Guarulhos.

Leia também

Modernismo trouxe novos ares para o teatro brasileiro

Um fato curioso ronda a Semana de Arte Moderna de 22. Por que não tivemos apresentação teatral a exemplo da música, da arte e da literatura nos três dias do evento? A resposta é bem objetiva e direta. “Simplesmente porque não existiam textos modernistas para serem encenados na época”, resum...

Leia Mais!
O teatro e os modernistas (1922-1942)

A relação entre alguns modernistas e o teatro é intrigante e bonita. O teatro entrou para a história como sendo a arte que faltou ao movimento inicial do modernismo brasileiro. O tom de lamento dos primeiros historiadores do teatro moderno, quando abordavam a Semana de Arte Moderna, sentindo-se ór...

Leia Mais!
Modernismos pelo Brasil: as poéticas dos anos 1920

A oficina “Modernismos pelo Brasil: as poéticas dos anos 1920” partiu da seguinte pergunta: qual foi a dimensão nacional concreta no movimento modernista em sua primeira década? Ainda que o ciclo de oficinas em que esta se insere ocorra por ocasião dos 100 anos da Semana de Arte Modena, o foco ...

Leia Mais!
Modernismo pelo Brasil

Quando o assunto é a Semana de Arte Moderna de 22, os principais nomes de escritores e artistas vinculados ao movimento estão concentrados no eixo Rio-São Paulo. Mas será que só existia poesia modernista nas duas cidades nos anos 1920? Em busca de respostas, Leandro Pasini, professor de literatura...

Leia Mais!
Foto-resenha: performance nascida da poesia

Por qual perspectiva podemos olhar o poeta Manoel de Barros? Este pode ser um ponto de partida, um recorte ou fotografia para entendermos a oficina “Foto-resenha: uma performance a partir da poética de Manoel de Barros”, realizada no mês de outubro, dentro do projeto Literatura Brasileira no XXI,...

Leia Mais!
O palhaço e o poeta

As palavras de Manoel de Barros são feitas de graça, aquela graça considerada sublime, bela e elegante. O palhaço também usa a graça como ofício, mas aquela graça da gargalhada, da alegria, da diversão. O que os dois afazeres tão distantes têm em comum? A resposta está na oficina Foto-resen...

Leia Mais!