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Publicações | Criação Literária

Moderno por acaso? Literatura e arquitetura

Ilustração: Fernando Siniscalchi

Cem anos após a Semana de Arte Moderna de 1922, nas tardes ensolaradas das terças de abril do terceiro ano pandêmico, computadores aproximaram nossas casas da biblioteca. Foram quatro encontros que buscaram entender a literatura e a arquitetura modernas brasileiras num amplo panorama cultural, em diálogo com o campo das ciências sociais.

Logramos assim conhecer e discutir a multiplicidade de práticas e de processos do Modernismo em literatura e arquitetura ao longo da década de 1920, a partir de um exercício dialético que considerou a coexistência e a interdependência entre arcaico e moderno no Brasil – país na periferia do capitalismo – onde a ligação com o novo está alicerçada no atraso social e econômico. 

No primeiro encontro, após as apresentações de todas e todos, partimos para uma deriva pela cidade de São Paulo desde os anos 1910. Visitamos o Theatro Municipal e até nos hospedamos no Hotel Esplanada. Atravessamos o Anhangabaú e na rua Líbero Badaró visitamos a garçonnière de Oswald de Andrade e a Exposição de Pintura Moderna de Anita Malfatti. A cidade se preparava para as comemorações do centenário da Independência do Brasil.

O segundo encontro iniciamos com um almoço na Villa Kyrial, mansão de Freitas Valle, em que pudemos desfrutar da companhia de Mário de Andrade. Guilherme de Almeida passou por lá no final da tarde e nos deu carona até o centro, para o Segundo Grande Festival, com palestras do próprio Mário e de Menotti del Picchia na Semana de Arte. Quando intentamos visitar a exposição de artes visuais, Ronald de Carvalho, num sarau improvisado nas escadarias, lia “Os Sapos” de Manuel Bandeira. A algazarra e as vaias foram tamanhas, que não conseguimos ver mais que a maqueta da “Taperinha da Praia Grande” do arquiteto polonês Georg Przyrembel, no centro do saguão. 

Mário fez questão de nos acompanhar na tarde seguinte à mostra, para que conhecêssemos a obra de seu arquiteto preferido e amigo Antonio Garcia Moya, “o poeta da pedra”, que ao lado de Przyrembel teve os projetos expostos no saguão do Theatro Municipal de São Paulo. Foi uma aula de pintura também. Tempos depois, encontramos a turma toda no Hotel Terminus, para uma comemoração da Revista Klaxon, que os modernistas lançariam no embalo da Semana. Já nas décadas seguintes – o tempo passou tão rápido – seguimos acompanhando a trajetória de Moya e do sócio engenheiro Guilherme Malfatti – tio de Anita –, em projetos e construções publicados pela Revista Acrópole.

Nosso encontro derradeiro foi uma festa, iniciada com a leitura do manifesto publicado pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavichk em 1925, então recém-estabelecido no Brasil: “Acerca da arquitetura moderna”. Na sequência visitamos suas casas modernistas das ruas Santa Cruz e Itápolis, em São Paulo. Nesta última, a galera modernista se reuniu oito anos depois daquela semana inaugural, celebrando algumas conquistas em nova exposição de artes visuais, agora sim com a arquitetura gritando. Por fim, considerando que toda construção simbólica se faz a partir do acúmulo de experiências e vivências nos percursos existenciais de cada um de nós, discutimos as possibilidades da produção de textos reflexivos e livres, numa intenção insurgente ao caos contemporâneo.

Que disputemos o passado – temos um passado imenso a construir –, na lembrança de que o tempo é espiralado (como afirmou Lina Bo Bardi, o tempo linear é uma invenção do ocidente). E coloquemos em cheque o progresso e a razão na construção da história dos vencidos, a partir das ruínas. Que com a sabedoria da escassez, sejamos capazes de reinventar o mundo, na prática miúda do cotidiano, na crítica outra coisa feita, ser sendo: construindo no presente, o presente.

Por Humberto Pio

Confira alguns dos trabalhos produzidos pelos participantes durante a oficina "Moderno por acaso? Literatura e arquitetura - 100 Anos da semana de arte moderna de 22", realizada na Biblioteca Parque Villa-Lobos, em abril de 2022.

Francilene Monteiro e Sonia Regina Silva

Marcelo Dacosta

Nina Furukawa


Arquiteto, poeta e professor. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1999) e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Engenharia de São Carlos (2006). Sócio-fundador do Estúdio Risco, onde atua nas áreas de arquitetura, expografia, cenografia, desenho gráfico e produção cultural. Professor da disciplina "Arquitetura efêmera" na pós-graduação em Design de Interiores Contemporâneo do IED São Paulo desde 2020. Curador de Arquitetura e Ensino do site Flávio Império. Publicou os livros de poesia Talagarça (Editora Reformatório, 2021) e Coágulo (Editora Reformatório, 2019) – ganhador do Prêmio Maraã de Poesia 2018. Co-autor do fotolivro Samba Mínimo, Extra, Luxo Super (Edição do autor, 2012). Integra as coletâneas Prêmio Off Flip de Literatura 2020 (Selo Off Flip de Literatura 2020), Longe de Monte Carlo (Edição do autor, 2020) e Transitivos (Off Produções Culturais, 2011) – apoiada pelo ProAC-SP 2010. 

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