Publicações | Crítica

Um Brasil Sonoro: do Modernismo à Tropicália

Fernando Siniscalchi

A paisagem sonora brasileira se construiu por um conjunto de ambiguidades, multiplicidades e contradições, entre a consciência de projeto e suas realizações. Os encontros da oficina “Do Modernismo à Tropicália: diferentes modos de escutar canção e música brasileira”, se concretizaram, um concreto já tão digital, em torno da escuta de canções e músicas que, a partir de suas próprias presenças sonoro-musicais e orais-verbais, vivificam as contradições do curso histórico de um Brasil Sonoro ao longo do século XX e começo do XXI.

Escolhemos Brasil Sonoro porque é um modo de agrupar duas práticas artísticas que tomaram cursos diferentes ao longo da história: a da música instrumental e a da canção. Essa distinção foi importante na oficina para entendermos e escutarmos como elementos diferentes interagem nas obras: i) as presenças sonoro-musicais percebidas por suas relações timbrísticas, rítmicas, melódicas, harmônicas, seus modos de fazer sentido no encadeamento sonoro como um todo; ii) as presenças orais-verbais apreendidas como uma parte que, ao se relacionar com as questões sonoro-musicais, principalmente pelo elo inerente entre melodia “pura” e melodia da fala, nossa entoação, constrói sentidos com ajuda do conteúdo das letras, dos modos como os sujeitos ali constituídos viviam e contavam as suas histórias.

A partir desse fio de escuta das práticas sonoras é que fomos ligando dois acontecimentos marcantes no contexto artístico, musical e cancional brasileiro: i) os festivais da Semana de 22 e a defesa do Modernismo; ii) e os cenário da canção brasileira entre 67 e 69 e o surgimento quase espontâneo do movimento tropicalista. Trabalhamos essa ligação entre os acontecimentos com base em três eixos principais: 1) a experimentação, 2) a multiplicidade estética e 3) o humor e a ironia. São elos que ajudam a perceber não apenas uma direção das sonoridades, mas também de um curso estético mais geral do Brasil.

O primeiro eixo, o das experimentações sonoras, nos guiou aos pontos mais impactantes dos movimentos modernistas e tropicalistas. Construímos escutas que levaram em conta inovações sonoras de todo tipo: experiências timbrísticas com a presença de instrumentos não convencionais, como o caso dos arranjos feitos pelos integrantes dos Mutantes, ou mesmo um modo muito diferente de tocar certos instrumentos mais conhecidos; vimos inovações no campo da oralidade, em que os cantores das canções tropicalistas exploravam a fala quase em seu estado puro, como no caso de Geleia Geral de Gilberto Gil e Torquato Neto; ouvimos experiências rítmicas que buscavam recuperar e mesclar diferentes sistemas sonoros e musicais de culturas distintas, como o caso das aproximações que Villa-Lobos fez das culturas indígenas e africanas. Esse eixo nos levou, ainda, a entender as disputas entre visões diversas sobre a produção sonora no movimento modernista e na tropicália, colocando em jogo conflitos entre o antigo e o novo, o arcaico e o moderno, o ultrapassado e o avançado etc.

No segundo eixo, vimos as multiplicidades estéticas que compõem ambos os movimentos. Villa-Lobos, o compositor que mais teve obras tocadas na Semana de 22, apresentou músicas de vários tipos: sonatas, trios, quarteto de cordas, peças para piano, formações inusitadas e até experiências cênicas, como no caso do Quarteto Simbólico, em que um coro de vozes femininas cantava de um lugar oculto no palco. As músicas de Villa-Lobos não seguiam apenas uma escola específica de composição, mas exibia uma pluralidade de técnicas composicionais e estéticas. Nada diferente do que aconteceu na canção tropicalista, na qual era possível encontrar canções que uniam ritmos mais tradicionais do Brasil como o Baião, a Marchinha, o Samba com o Rock dos Beatles, com a Jovem Guarda brasileira etc. Essa multiplicidade faz parte de uma tradição estética do Brasil e faz ecoar os caminhos propostos pela Antropofagia defendida por Oswald de Andrade logo após a Semana de 22.

O terceiro eixo é o dos efeitos de humor e da construção de ironia. Muitas obras que fizeram parte desses movimentos inflamavam a discussão sobre o antigo e o novo, o arcaico e o moderno, a partir do humor e da ironia, como é o caso da peça d’Edriophthalma de Erik Satie, uma sátira da marcha fúnebre de Chopin, que foi tocada pelo pianista Ernâni Braga na primeira palestra da Semana de 22, feita por Graça Aranha. Os tropicalistas exploraram ainda mais esse eixo com canções como Coração Materno, de Vicente Celestino, interpretada por Caetano Veloso no disco Tropicália ou Panis et Circensis, ou mesmo 2001 (dois mil e um) dos Mutantes. Ambas são irônicas, tanto no que diz respeito à letra como nas presenças sonoro-musicais da canção. Tais efeitos foram fundamentais para que o movimento modernista e a tropicália colocassem em questão as valorações que se dava a diferentes tipos de música e canção. A ideia era desafiar a noção de que uma música ou canção era melhor ou mais brasileira que outra.

Os três eixos citados foram os que melhor nos revelaram os elos entre dois acontecimentos importantes para a consolidação de um Brasil Sonoro. Ainda vemos as reverberações do movimento modernista e da tropicália no cenário contemporâneo da canção e da música. Hoje há uma multiplicidade ainda maior, com o surgimento de diversos gêneros ou tipos de canção e de música experimental brasileira. A mistura é um procedimento muito valioso para a conduta estética e sonora do país, por mais que as contradições sociais ainda nos alertem sobre a necessidade de nos posicionarmos criticamente sobre as desigualdades que compõem a identidade brasileira.

Por Gustavo Bonin

Veja, a seguir, as resenhas produzidas como resultado da oficina "Do modernismo à tropicália: diferentes modos de escutar canção e música brasileira ", ministrada por Gustavo Bonin, dentro da programação da Biblioteca de São Paulo. 

Rafael Teixeira de Oliveira

Tiago Segabinazzi

Zeno Queiroz



Residente em São Paulo/Brasil, atua como compositor e intérprete (clarinete) de música contemporânea, explorando as potencialidades de interação da linguagem musical contemporânea com outras linguagens artísticas. Integra o Coletivo Capim Novo, grupo de compositores, intérpretes e artistas que desenvolvem pesquisa, criação e prática em Música e Arte Contemporânea. Estudou composição com os professores Rodrigo Lima, Alex Buck e Matheus Bitondi. Possui mestrado em musicologia e cursa doutorado em sonologia sob a orientação do compositor Silvio Ferraz, ambos pela Universidade de São Paulo. Foi professor substituto da disciplina de Percepção Musical na Universidade Federal do Rio de Janeiro entre 2018 e 2019.

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