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Publicações | Crítica

Um Carinho para Mestres e Mestras

Ilustração: Fernando Siniscalchi

O espírito do professor monta na vassoura mágica e vai fazer uma excursão pelo país das maravilhas. Outra vez os dois mundos: o infinito dentro do finito. (Caminhos Cruzados, Érico Veríssimo)

O fragmento acima faz parte do primeiro capítulo da obra Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo. A ideia aparentemente paradoxal de acomodar o infinito dentro do finito me parece ser uma das características mais fascinantes de um certo tipo de professor: aquele que conhece bem a “dor e a delícia de ser o que é”, como reza a letra de Caetano Veloso. E a ficção, por vezes, nos brinda com esses personagens em cuja trajetória o leitor viaja. Professores personagens foram o centro da oficina promovida pela Biblioteca Villa Lobos no mês de agosto de 2021. Durante quatro manhãs produtivas, analisamos a construção textual, discursiva e histórica desses sujeitos sociais.

O professor é um dos profissionais que faz a mediação entre as letras, os livros, os autores e os leitores sendo 15/10 a data instituída no Brasil para homenageá-lo. Vale a pena lembrar que o mês de outubro traz

consigo outras datas especiais relacionas à leitura e à literatura. É nesse mês que se comemoram o Dia Nacional da Leitura (12/10), a Semana Nacional da Leitura e da Literatura (11 a 17/10) e o Dia Nacional do Livro (29/10). Além dessas celebrações, em outubro, festejamos o aniversário de nascimento de um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade (31/10). 

Mas retomando o romance de Érico Veríssimo, no primeiro capítulo, o narrador nos apresenta o professor Clarimundo Roxo que em um sábado rotineiro desperta às cinco e meia da manhã. O mestre de 48 anos, “homem do relógio” que “preparou projetos, estudou e compreendeu Einstein, escreveu artigos para jornais, notas sobre filosofia, matemática, física e astronomia recreativa”, levanta-se sonolento depois de ter sonhado estar passeando de braços dados com o pai da Teoria da Relatividade e:

"Vai ao lavatório de ferro, emborca o jarro sobre a bacia e a água fria apaga o último vestígio do outro mundo. Clarimundo coordena ideias: sábado, francês para a filha do cel. Pedrosa, matemática e latim no curso noturno e... – com as mãos suspensas, úmidas, pingando, aproxima-se para o horário que está colado à parede - ... português para o filho do desembargador Floriano. Bom." (p. 27)

A partir do amanhecer desse professor, que a despeito de ler (e entender) a obra de Einstein sobre a teoria da relatividade, vive em um quarto de aluguel em condições precárias, destacamos as considerações de Zilberman (2004), ao observar que os mecanismos ideológicos reservam ao magistério um determinado lugar social. No caso do romance de Veríssimo, em que os personagens estão distribuídos em blocos socialmente estratificados, o professor Clarimundo figura no núcleo dos personagens pauperizados, no entanto ele se revela um dos elos de comunicação com as famílias ricas e burguesas. O professor faz a ponte entre mundos diversos cujos personagens têm acesso extremamente desigual a bens materiais e culturais. 

Nossa oficina abordou também a trajetória de formação da professora Bibiana, uma das protagonistas do aclamado romance “Torto Arado”, 2014, de Itamar Vieira Jr. Um aspecto interessante, dos muitos que podem ser destacados na obra, é a relação dos membros da família protagonista com a escola, com o saber escolar, que tem nos professores certa materialidade – os professores são uma face do conhecimento formal. Quando menina, Bibiana e a irmã Belonísia foram alfabetizadas na precária escola da fazenda com todo o apoio da mãe e sobretudo do pai que se esforçou para que o prefeito construísse, tempos depois, uma escola para as crianças locais. Mas nem sempre as professoras que passaram pela escola estabeleceram um elo especial e acolhedor entre os mundos diferentes pelos quais circulam alunos e mestres, pelo menos aos olhos de Belonísia:  

"Poder estar ao lado do meu pai era melhor do que estar na companhia de dona Lourdes, com seu perfume enjoativo e suas histórias mentirosas sobre a terra. Ela não sabia por que estávamos ali, nem de onde vieram nossos pais, nem o que fazíamos, se em suas frases e texto só havia histórias de soldado, médico e juiz." (p.99)

Diferentemente da professora Lourdes, Bibiana é uma professora identificada com os valores da comunidade da fazenda Água Negra. Uma das dimensões admiráveis na construção dessa personagem de “Torto Arado” é justamente a trajetória similar a de muitas professoras da vida real: mulheres vindas de camadas pauperizadas, jovens mães, trabalhando em subempregos a fim de terem a oportunidade de estudar para depois ensinar “os seus camaradas”, para lembrarmos da canção “Yáyá Massemba”, de Roberto Mendes e Capinan. Tendo deixado a fazenda ainda jovenzinha, Bibiana cursou supletivo e posteriormente o curso formador de mestras:

"Das tarefas que precisou fazer enquanto procuravam se firmar no mundo além da fazenda: ajudante de cozinha num restaurante de beira de estrada, diarista de serviços domésticos, cuidando de crianças. Durante esse tempo, nasceram seus filhos, e ela cursou o magistério, realizando em parte os propósitos que a fizeram deixar a fazenda por um tempo." (p. 214)

E como assinala Belonísia, ao fim dessa jornada formativa, Bibiana retornou à fazenda, agora diferente: “Bibiana havia se tornado professora, falava diferente, bonito, via orgulho de meu pai ao vê-la ensinar os filhos.” Uma professora que sabia das histórias da formação do lugar, conhecia as famílias, a terra, o elemento de que eram formadas aquelas pessoas. E agora percebendo também que “a vida além de Água Negra não era muito diferente no que se referia à exploração”. Por meio dessa jornada histórica, o leitor acompanha o embate para a acomodação de um infinito ancestral – a história de um povo remanescente do período escravocrata – dentro do finito espacial da fazenda, da terra, que contou com a participação dessa professora forjada na luta pelos direitos das famílias campesinas. 

Tivemos a alegria de conhecer outra professora personagem em nossa oficina por meio da discussão do romance “Quarenta dias”, de Maria Valéria Rezende, de 2014. Desta vez uma professora de francês, paraibana, aposentada, que atendendo ao pedido da filha, em uma situação inusitada levou os leitores às ruas de Porto Alegre em busca de um rapaz desaparecido. Junto com a professora, o leitor embarca na aventura e acaba aprendendo muito sobre lugares e pessoas de comunidades mais humildes da capital gaúcha.  Pode-se afirmar que o leitor passa a conhecer uma Porto Alegre pouco narrada, ao lado da professora Alice, nome cuja narrativa constrói logo de início uma relação intertextual com a personagem-menina inglesa de Lewis Carrol. Ambas Alices percorrem uma trajetória de autoconhecimento por meio de uma aventura inusitada em espaços desconhecidos. Ouso afirmar que, mais uma vez, o leitor pode acompanhar o infinito dos desejos, dos medos que se acomoda no finito geográfico, temporal e narrativo! O percurso de autoconhecimento da professora Alice conta com um diálogo que tem por interlocutor(a) a boneca Barbie – personagem que figura na capa do caderno no qual as memórias são escritas. A Barbie corporifica um(a) interlocutor(a) imaginário(a) e necessário(a) no itinerário de Alice:

"Desculpe, Barbie, não lhe dei bastante tempo pra descansar, que eu mesma não quero descansar, eu quero é entender ou desistir de entender de uma vez por todas. Escrever pra entender ou esquecer. Bem que me tinha levantado desta mesa com a intenção de começar a normalizar a vida, tipo procurar o cartão do banco, que não foi difícil de achar, tão organizadinha que era a ex-professora Poli!" (p. 45)

"Além de que não quero cozinhar nem nada, não quero pôr ordem em mim, quero mesmo é escrever." (p. 46)

E com esse desabafo da professora Alice podemos trazer nosso querido (e infinito) professor Antonio Cândido que ao discorrer sobre as funções da literatura, na obra “A literatura e a formação do homem”, assinala que tanto a fruição quanto a produção literária têm como base uma necessidade universal de ficção e de fantasia, que de certo modo é coextensiva ao homem uma vez que se faz presente na vida dos homens como indivíduos ou em grupos. Ou seja, como uma das dimensões de nossa humanidade, temos a necessidade de narrar, de contar, de desfrutar do prazer por meio da ficção e das possibilidades sempre múltiplas do trabalho com a linguagem e com os sentidos. 

Deixo aqui meus votos de vida longa, produtiva e feliz aos colegas professores da vida real e da ficção.

por Lilian do Rocio Borba

Veja, a seguir, as duas análises produzidas como resultado da oficina “Professores personagens da literatura: textos sobre outros textos”, ministrada em agosto pela professora Lilian do Rocio Borba, dentro da programação da Biblioteca Parque Villa-Lobos.

Jaiane Batista

Patrícia Teixeira Dias


Referências Bibliográficas

CANDIDO, Antônio. A literatura e a formação do homem. Remate de Males. Campinas, SP, [1999] 2012. DOI: 10.20396/remate.v0i0.8635992. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8635992. Acesso em: 17 set. 2021.

CARROL, Lewis. As aventuras de Alice no País das Maravilhas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.2002

REZENDE, Maria Valéria. Quarenta Dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014

VERÍSSIMO, Érico. Caminhos Cruzados. São Paulo: Companhia de Bolso, [1935] 2016

VIEIRA Jr. Itamar. Torto Arado. São Paulo: Todavia. 2019

ZILBERMAN, Regina. Literatura e história da educação: representações do professor na ficção brasileira. In: Revista História da Educação. Vol. 25. 2001. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/asphe/article/view/30281/pdf Acesso em: 17 set. 2021.


Lilian do Rocio Borba é graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (1992), com doutorado em Linguística, na área de Sociolinguística, pela Universidade Estadual de Campinas (2006), e estágios de pós-doutorado também pela Universidade Estadual de Campinas (2010 e 2014). Pesquisa sobre os africanos e a formação do português brasileiro.

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