Publicações | Crítica

As formas do rito

Fernando Siniscalchi

É como se fosse um novelo a Semana de Arte Moderna. Um enovelado, uma intriga. Puxam-se fios de um lado para tramar formas novas. Se esgarçam de outro. Por vezes, enrolam-se e há pouco para ver diante do emaranhado de tensões que foram as de lá, e são também as de cá. O modernismo plural. Não é só a Semana, nem as revistas, nem os debates públicos e críticos que se sucederam a cada efeméride. Nem os variados posicionamentos que descobrimos, pouco a pouco, na correspondência de escritores hoje publicada. Não está preso a seu tempo, ainda que não esteja no nosso. Desloca-se, é reescrito, reemaranha-se e o debate constitui a sua natureza, por assim dizer, mitológica. A vaia, uma vaia monstruosa ou gigantesca, é um de seus lugares. Mito e vaia.

Quatro encontros-oficinas sobre uma de suas formas com a qual pretendemos outro enredo. Enredo que escapa ao modernismo e vem até nós, e cuja origem fizemos remontar, com o auxílio do artigo “Poezia e relijião” de Carlos Drummond de Andrade, à poesia simbolista. As formas do rito. De um rito que é menos o nosso, celebratório da Semana, com workshops, colunas nos jornais, congressos, do que um certo rito da poesia. É como se fosse um novelo menor mas não menos extenso, maleável. Quais formas e temas terá buscado a poesia moderna para celebrar? Ao longo das oficinas vimos alguns temas: o carnaval, o desfile, a procissão religiosa, o elogio fúnebre. Com eles vêm seres que “passam” diante do eu — imagem tão fecunda da modernidade, a da/do passante. O poema vem ritualizar essa outra ritualidade: de grupos, de formas de comunhão e partilha do espaço, público e da arte. De uma ritualidade que encena, curiosamente no panorama modernista, outro tempo, sem se ver em diálogo claro com as vanguardas ou com o mover-se frente à sua atualidade.

Uma dessas formas: a da elegia. Está em Manuel Bandeira, que lemos no primeiro encontro: na “Elegia de Londres” ou na centralidade da figura de Jayme Ovalle para vários de seus poemas: “homem visceralmente impregnado da palavra do Cristo”, embora “com ressaibos de judaísmo e de macumba”. Ou em Vinícius de Moraes, em “Elegia quase uma ode”, que pudemos ler junto com outros poetas dos anos 1930. Ou em Orides Fontela, que veio ao terceiro encontro. Ou em Armindo Trevisan, ao final. Neles, em alguns deles, alguns gestos ou imagens adicionais: do sacrifício e da humildade. E, com isso, uma retórica muitas vezes da não-retórica, com o desejo de a poesia buscar espaços de indizibilidade e silêncio. E constituir-se quase como um exercício espiritual.

Para o leitor do modernismo e dos caminhos que foram tramados entre o modernismo e o nosso tempo, talvez surpreenda o que haja aí de distante do debate sobre a nacionalidade, de certo combate com formas poéticas tradicionais, que coincide com a busca de um “espírito religioso”, palavras de Mário de Andrade. Nas oficinas, foi esse também um de nossos fios, atentos ao que afirmou Cassiano Nunes quanto à poesia de Jorge de Lima: “tanto mais se impregna da ideia religiosa, tanto mais pessoal e original fica!”. Novelo em forma também de rosário.

Por Pablo Simpson

Confira abaixo o conteúdo dos trabalhos produzidos pelas participantes da oficina: Arthur Dias de Souza, Francilene Monteiro da SilvaLaís Midori da Silva e Sônia Regina da Silva

Pablo Simpson é poeta, tradutor e professor do Departamento de Letras Modernas do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, foi bolsista de pós-doutorado da Fondation Maison des Sciences de l’Homme (FMSH-Paris) e da FAPESP, entre 2006 e 2008. Foi, igualmente, Leitor de Língua e Civilização brasileira na Université de Yaoundé I nos Camarões entre 2010-2012. É autor de O Rumor dos cortejos: poesia cristã francesa do século XX (Unifesp, 2012). Traduziu livros de Georges Bernanos como Senhor Ouine. Em 2021 publicou o livro de poemas O Tio da caminhonete (Editacuja). 

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