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Publicações | Crítica

A Semana de Arte Moderna sob o viés das revistas literárias

Acervo pessoal

Na oficina A Semana de Arte Moderna por Outros Caminhos, realizada nos dias 7, 8, 9 e 10 de novembro, na Biblioteca Parque Villa-Lobos, a professora de literatura brasileira da Unifesp, Mirhiane Mendes de Abreu, propôs um olhar diferenciado sobre o movimento modernista de 1922. Em vez de pesquisar as manifestações do período por meio da literatura produzida na época, o convite foi analisar as revistas literárias como a Klaxon e a Madrugada, e também as correspondências trocadas por Mario de Andrade com colegas, como Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho e Carlos Drummond de Andrade, e até dedicatórias para trazer a vivacidade de um tempo que não fez parte da narrativa tradicional. 

“A construção desse legado por meio da pesquisa na literatura é muito ampla, o que me interessa é o processo de construção do pensamento. Modernismo é movimento, construção coletiva, que vai além das artes e recebe forte influência da alta sociedade, como os escritores e diplomatas Raul Bopp e Graça Aranha”, explica a professora. 

A proposta do movimento modernista era tirar o atraso cultural do Brasil. Para dar o contexto da época às aulas, Mihriane apresentou no primeiro dia a programação e os preparativos para a realização da Semana de Arte de Moderna, que, a princípio, foi formatada como um evento simples a ser realizado dentro de uma livraria e com a duração de apenas um dia. Interesses econômicos advindos da elite cafeeira fez o movimento crescer: além de ganhar o status do Theatro Municipal de São Paulo, a programação passou para três dias. Apesar do envolvimento da alta sociedade nos preparativos, os artistas e suas produções não foram poupadas das vaias e das críticas. Um dos momentos mais emblemáticos foram as vaias proferidas a Ronald de Carvalho ao ler o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira. 

Avançando na temática, os alunos viram como se deu a relação dos modernistas brasileiros com a vanguarda cultural europeia, especialmente no que diz respeito ao Manifesto Futurista escrito pelo poeta italiano Fillippo Tommaso Marinetti. “O Mario de Andrade não queria essa proximidade com o futurismo e foi um dos grandes defensores do nome modernista para o movimento, discordando inclusive de Oswald de Andrade que só abandou a ideia após ver o envolvimento de Marinetti com o fascismo de Mussolini”, conta Mihriane. 

O terceiro dia foi reservado para analisar a imagem de Portugal dentro do modernismo, lembrando que o movimento aconteceu no ano do centenário da Independência do Brasil. Entre os achados, pode-se dizer os brasileiros foram extremamente lusofóbicos, trazendo à tona as mazelas da colonização e evitando as associações com país. A recíproca também foi verdadeira, mostrando o vazio de referências ao movimento brasileiro nas revistas de literatura portuguesa, como a Orpheu. 

A pesquisa da professora Mirhiane também contemplou a análise do movimento fora de São Paulo, principalmente nos textos das revistas Madrugada, do Rio Grande do Sul, e Arco & Flexa, da Bahia. Algo recorrente em todas as publicações é o viés elitizado, presente tanto nas matérias quanto nos anúncios e na apresentação gráfica. 

Sobre as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, a serem realizadas em 2022, a professora reafirma a importância da celebração, “porém sempre de forma crítica e sem ser subserviente ao movimento”, adverte. 


Portugal-Brasil e os modernismos em revistas

No encerramento da sua palestra, Mirhiane convidou a docente de literatura portuguesa da Universidade Federal de Minas Gerais, Raquel Madanêlo Sousa para mostrar sua pesquisa sobre o modernismo brasileiro nas revistas de literatura de Portugal, como Orpheu, A Águia, Contemporânea e Seara Nova. O resultado revelou que o movimento foi totalmente ignorado pelos escritores portugueses, principalmente Fernando Pessoa. 

Raquel afirma que o movimento modernista português se estruturou nas páginas das revistas. “Elas são praticamente um gênero literário em si porque o material ali reunido era resultado de um trabalho coletivo, de discussões periódicas entre vozes heterogêneas e importantes para o movimento, como o próprio Fernando Pessoa, Eduardo Guimarães, Ronald de Carvalho, Luís de Montalvor, Mario de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Antonio Ferro e outros.” 

Se o modernismo brasileiro não ganhou projeção em Portugal, o mesmo não aconteceu com o centenário da Independência, comemorado como ex-colônia exemplar com o qual mantinham relações fraternas. Para marcar a data criaram o cinematográfico raid aéreo Lisboa-Rio de Janeiro, a primeira travessia do Atlântico Sul, realizada em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, aventura amplamente divulgada e comemorada na imprensa dos dois países.

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