Publicações | Criação Literária

O palhaço e o poeta

Beto Riginik

As palavras de Manoel de Barros são feitas de graça, aquela graça considerada sublime, bela e elegante. O palhaço também usa a graça como ofício, mas aquela graça da gargalhada, da alegria, da diversão. O que os dois afazeres tão distantes têm em comum? A resposta está na oficina Foto-resenha: uma performance a partir da poética de Manoel de Barros, conduzida pela atriz, artista circense, palhaça e discente no doutorado da Unifesp, Suelen Santana.

Durante os quatro encontros realizados nos dias 2, 9, 16 e 23 de outubro de 2021, na Biblioteca Parque Villa-Lobos, os participantes foram convidados a deixar seus instintos realistas fora da sala de aula e ingressar em um mundo repleto de magia, brincadeiras, simplicidade, sutilezas, ironias e galhofas, uma homenagem às palavras performáticas do poeta e ao Dia do Palhaço, comemorado em 10 de dezembro.

A oficineira não poderia ter escolhido referência melhor na literatura do que Manoel de Barros para fazer contraponto com a arte da palhaçaria. Considerado uma personalidade “não-biografável”, o poeta sempre confundiu seus interlocutores com informações de cunho duvidoso e brincava: “Não sou um mentiroso, eu apenas invento coisas.” O olhar curioso de Manoel de Barros lançado para as coisas do cotidiano, para os animais e para a natureza é o mesmo olhar com que o palhaço observa as cenas do dia a dia para criar suas piadas e encenações pueris.


A proposta da oficina foi promover um mergulho de corpo e alma nos dois fazeres artísticos. “A ideia era produzir performances literárias, deslocando o texto para fora do papel e criando uma interplasticidade entre o ser poético e o fazer poético, usando não apenas a voz, mas o corpo todo”, diz Suelen Santana.

Entre as várias atividades práticas da oficina estavam as brincadeiras no chão, invenção de novas palavras, a troca de funcionalidades para objetos e a sugestão de deslocamentos pela sala usando movimentos não habituais do corpo, performances semelhantes ao andar dos palhaços. Tarefas que serviram não só para “acordar o corpo”, mas também para tirá-lo de sua zona de conforto.

Item bem característico dos palhaços, as máscaras foram assunto de destaque durante a oficina. Suelen apresentou aos participantes os conceitos da pedagogia das máscaras e ensinou o grupo a criar o aparato em gesso, oferecendo o material para a execução em casa em função das regras de distanciamento social que impediram a produção dos moldes dentro do ambiente da biblioteca. Como encerramento, os participantes tiraram fotografias do objeto produzido instalados em ambientes dentro e fora da biblioteca.

A ideia de usar elementos fora do contexto tradicional é a proposta do trabalho da própria oficineira de criar pontes entre diferentes linguagens artísticas, além de trazer luz e valorizar uma arte mais do que necessária na atualidade: a de fazer rir.

Para saber mais assista ao vídeo disponível no YouTube Só dez por cento é mentira, um mergulho cinematográfico na biografia inventadas e nos versos fantásticos do poeta Manuel de Barros.

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