Publicações | Crítica

Sons do Brasil

Nelson Keno


Oficina com Gustavo Bonin mostra a influência do Modernismo e da Tropicálica na construção do Brasil sonoro.

Se tem algo que realmente embalou a Semana de Arte Moderna de 1922 foi a música. Entre as diversas apresentações realizadas nos três dias de evento, os concertos dominaram a maior parte da programação, com destaque para as obras de Heitor Villa-Lobos. Mas o que havia de novo nesse movimento em termos de sonoridade e qual foi o legado deixado para a música brasileira? Quem explica as confluências e contradições desse período é o compositor e intérprete de música contemporânea, Gustavo Bonin, que ministrou nos dias 20, 21, 27 e 28 de janeiro, a oficina on-line Do modernismo à tropicália: diferentes modos de escutar canção e música brasileira, na Biblioteca de São Paulo.


Fortemente ancorada na escuta, a oficina apresentou de forma prática o desenvolvimento do Brasil sonoro ao longo do século XX. A análise das músicas e das canções de diferentes períodos mostrou que o amadurecimento aconteceu gradativamente, começando pela pressão entre os intelectuais para refutar as influências da cultura europeia e conquistar de uma autenticidade e identidade nacional. “A música dessa época serviu de modelo para a autonomia das artes. Quando Villa-Lobos viaja para a Europa, ele forma junto com o Ígor Stravinski e Claude Debussy, o trio que proporciona a abertura na música, privilegiando a dissonância e as experimentações sonoras, como os ruídos do futurismo italiano”, explica Bonin.

Na busca por linguagens inovadoras, os temas nacionais entram para o repertório musical, inspirados nas lendas, folclores, cartas e manifestos da época. Em paralelo, acontece o crescimento da canção, com a chegada da era do rádio. Nesse período, a inovação da música brasileira perde um pouco o ritmo, mas retorna com força na Tropicália. “A Tropicália é o ponto de virada ao incorporar na multiplicidade de suas canções conceitos muitos parecidos com a Semana de 22”, explica Bonin. Entre os pontos de conexão, estão a ideia de liberdade, a ironia (carnavalização, alegorias), multiplicidade estética e uso de elementos timbrísticos diferenciados.

Por conta da ditadura militar, a Tropicália termina de forma abrupta, mas as inovações não deixam de acontecer e vão surgindo pelas mãos de músicos como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal e o Grupo Rumo entre as décadas de 1970 e 1980. Mais adiantes temos a chegada do Rap com Os Racionais e a percussão revolucionária de Naná Vasconcelos, com todos trazendo uma mistura de gêneros, ritmos, arranjos inesperados e compassos esquisitos.

Para o momento atual, Bonin acredita que não teremos mais movimentos disruptivos como o modernismo e a Tropicália. Primeiro pela diversidade de gêneros e estilos existentes, que não causam mais tanto impacto porque as pessoas já estão acostumadas a ouvir coisas diferentes. “Ao passar pelo feed do Instagram, por exemplo, é possível pular de uma comunidade para outra sem grandes surpresas.” E, segundo, porque a música foi mercantilizada, ou seja, a recepção depende do valor investido na sua divulgação. “Atualmente está mais em jogo o lugar de fala, como as questões de raça, classe social e gênero, do que o que se canta efetivamente”, acredita.

Ouvir as músicas e canções guiadas pelo conhecimento de Gustavo Bonin, é entrar em mundo sonoro praticamente desconhecido. A dificuldade que a maioria dos brasileiros possuem em ter essa proximidade com a linguagem musical decorre, de acordo com o compositor, da falta de um aprendizado dentro das escolas. “É preciso aprender a escutar a música da mesma forma que as pessoas aprendem a ler um texto, apresentando caminhos possíveis e diferentes formas de interpretação”, destaca. Para ele, além da falta de incentivo, uma celeuma ronda a música, que é o fato de ser considerada algo grandioso, que requer talento, mas que na prática é uma técnica como outra qualquer, que pode ser desenvolvida e aperfeiçoada.

Leia também

Um Brasil Sonoro: do Modernismo à Tropicália

A paisagem sonora brasileira se construiu por um conjunto de ambiguidades, multiplicidades e contradições, entre a consciência de projeto e suas realizações. Os encontros da oficina “Do Modernismo à Tropicália: diferentes modos de escutar canção e música brasileira”, se concretizaram, um ...

Leia Mais!
Semana de Arte Moderna – por outros caminhos

Quando meu amigo e colega Pedro Marques me convidou para integrar o projeto Literatura Brasileira no XXI com uma oficina sobre a Semana de Arte Moderna, senti a alegria e a responsabilidade de levar ao público reflexões sobre o evento e seu papel no processo de renovação da cultura brasileira. Assi...

Leia Mais!
A Semana de Arte Moderna sob o viés das revistas literárias

Na oficina A Semana de Arte Moderna por Outros Caminhos, realizada nos dias 7, 8, 9 e 10 de novembro, na Biblioteca Parque Villa-Lobos, a professora de literatura brasileira da Unifesp, Mirhiane Mendes de Abreu, propôs um olhar diferenciado sobre o movimento modernista de 1922. Em vez de pesquisar as ...

Leia Mais!
A modernidade do século XIX

Modernos, antes de 1922. O objetivo da oficina ministrada pela professora de literatura da Unifesp, de Guarulhos, Francine Fernandes Weiss Ricieiri e realizada nos dias 6, 13, 20 e 27 de novembro, foi mostrar aos participantes que a ideia de modernidade na literatura brasileira começou bem antes do mo...

Leia Mais!
Modernos, antes de 22

Uma oficina que pudesse pensar a modernidade, no Brasil, nas últimas décadas do século XIX. Talvez pareça paradoxal – e é. Modernidade implica mergulho em paradoxos que apagam ou embaralham limites e fronteiras: os limites entre nacionalismo e cosmopolitismo, os limites entre tradição e aceler...

Leia Mais!
Oficina com Lilian do Rocio Borba ensina a ‘desvendar’ os segredos do texto

O texto é um evento. Mas que evento é esse? O que faz um texto ser caracterizado como literário? Para começar a responder a essas perguntas, a “Oficina Professores personagens da literatura: textos sobre outros textos”, ministrada pela professora Lilian do Rocio Borba, com início no último di...

Leia Mais!
Governo do Estado de SP