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Minicontos de trabalho - Literatura Brasileira no XXI

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Minicontos de trabalho

Foto: Equipe SP Leituras

O trabalho é um conhecido tema literário. Poemas da antiguidade latina tratam das lidas com a terra. Passagens bíblicas dão conta de serviços domésticos. Cartas do início da colonização lusa falam da mão de obra indígena. Com a industrialização e urbanização do ocidente – a divisão do trabalho exaurindo braços para ampliar a produção – a matéria veio para o centro da cena.

Num país erguido à escravidão e subemprego, drama presente em qualquer ramo da atividade econômica brasileira, escritores haveriam de flagrar as relações de trabalho. Machado de Assis mostra o cinismo com que um Brás Cubas normaliza a servidão de mucamas e meninos de recados. Muitas letras de canções revelam o desespero de quem muito trabalha para comer pouco.

Chega a ser difícil não encontrar em contistas contemporâneos, como Marçal Aquino e Cida Sepúlveda, situações em que o trabalho, em lugar de edificar pessoas, destrói corpos e psicologias. Quando dependente de aplicativos, o trabalhador pode estar sujeito a acidentes e arbitrariedades fatais, num drama que ganha novos contornos, tensão entre dois extremos: empreendedorismo individual e escravidão moderna.

Os minicontos da oficina Personagens do trabalho, sob a batuta de Milena Mulatti Magri e Gustavo Scudeller, acertam em cheio a violência das atuais relações trabalhistas. Olhares afiados, às vezes do tamanho de uma linha, desmontam o mito de que todo trabalho é digno. O trabalho pode e deveria ser o espaço da partilha social e do desenvolvimento individual. Mas para isso, o Estado precisaria, de fato, garantir a justiça entre os entes geradores da riqueza nacional.

Empresas, públicas ou privadas, não podem ser moendas de gente. A população, mais ou menos capacitada, tampouco se conforma à esmola de governantes ou patrões. Tudo isso foi amplificado pela pandemia, que tanto ceifa empregos como pessoas. Estes minicontos de trabalho, tão mínimos quanto ardidos, estão aqui para lembrar o Primeiro de Maio. Para contar, na linha dos velhos cantos de trabalho, aqueles que perderam a batalha contra a covid-19 buscando ganhar a vida.

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