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Modernista e cristão

O projeto Literatura Brasileira no XXI joga luz sobre algo que, de tão óbvio, é pouco abordado: o modernista, em regra, era profundamente cristão. Tal se dá por vários ângulos, a começar da formação católica de quase todos. Assim, para além dos que se alardearam convertidos, como Murilo Mendes, ou espiritualistas, como Cecília Meireles, um cristianismo cultural brota das obras modernistas.

Sob o signo da ruptura, estruturas clássicas e românticas foram abaladas. O discurso logicamente belo cedeu espaço ao absurdamente estranho, ou, ainda, o poeta inspirado na natureza virou artista pirado em urbanidade. Mas a mística cristã predominou. Cantando a urbe paulista, Oswald de Andrade dispõe um padre a parar o trânsito. Entregue ao pessimismo, Carlos Drummond ainda faz o sinal da cruz. Mesmo quando desce ao inferno, o Orfeu de Jorge de Lima está rodeado de anjos. 

A oficina “Modernidade e as formas do rito” revelou essa face religiosa, ora em bases teológicas, ora com raízes cotidianas. Para Pablo Simpson, pesquisador do assunto no Brasil e na França, o vanguardismo nem sempre se opõe à espiritualidade. Autor de O rumor dos cortejos: poesia cristã francesa do século XX, mostrou que, entre nós, o modernismo ritualiza a ruptura, mas isso não vira anti-cristianismo, mesmo com críticas à fé institucionalizada.  

Assim, quando Mário de Andrade foi chamado de “sumo pontífice” do modernismo, já na década de 1920, talvez não se tratasse apenas de metáfora. Talvez fosse a consciência de que aquele que convence os pares sobre seus ideais prática, de fato, um apostolado. Ora, o que fizeram líderes de vanguarda dentro e fora do Brasil? Espalharam sua boa-nova em revistas ou conferências, ainda que recheadas de iconoclastia.


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