/ governosp

Notice: Undefined variable: autor in /home/lbxxiorg/public_html/publicacoes/ver.php on line 19

Publicações | Destaques

Persona analfabeta

Foto: banco de imagem

Uma oficina de criação literária focada em analfabetos soa como para você? Se falamos de leitura e escrita, o que isso teria a ver com quem, justamente, não lê e tampouco escreve? Bem, o Brasil foi construído por trabalhadores majoritariamente analfabetos – contando povos ameríndios, africanos e europeus – que também habitam nossa literatura. 

Claro que cozinheiras, escravos, roceiros e operários nem sempre foram representados de modo positivo. Embora detentores de conhecimentos fundamentais ao sucesso econômico da pátria, não é difícil encontrar escritores imbecilizando uma preta velha – ela que preparou mingau para aqueles que seriam diplomatas e senadores – ou embrutecendo um violeiro – justo ele cheio de virtuosos ponteados e duetos afinados.

Mas houve quem reconhecesse no analfabeto fontes de conhecimentos, e não o tipo infecto a ser curado ou até eliminado da sociedade. Cornélio Pires revelou caipiras de fala aguda, dos mutirões organizados, leitores da fertilidade e beleza da terra. Manuel Bandeira ouviu a língua certa do sertanejo, sua capacidade de domar enchentes e arquitetar festejos coletivos. 

Na oficina “Analfabetos personagens da literatura: do estigma à vida”, Maurina Lima Silva discutiu autores que, como Conceição Evaristo e Itamar Vieira Jr.,  dão conta dessa vida oral comum a tantos brasileiros dignos. Depois de muitas campanhas para erradicar o analfabetismo, às vezes mal planejadas e baseadas em preconceitos, temos hoje cerca de 5% da população iletrada. Um outro país de homens e mulheres que, apesar de relevantes na sociedade, são pouco respeitados.

É essa identidade ignorada por diversas políticas públicas – quando desconsideram que cartilhas sobre covid-19 não serão lidas por todos – e até por intérpretes da nossa cultura – ao subestimarem eficiência e restrições das formas ágrafas de aprendizado – que pulsa registrada aqui em relatos, versos e narrativas para lá de comoventes. Uma reflexão necessária para o oito de setembro: Dia Mundial da Alfabetização.


Leia também

Modernismo em português: três continentes

Em dezembro, o projeto Literatura Brasileira no XXI conclui o ciclo de oficinas conectadas à Semana de Arte Moderna de 1922. Foram ao todo doze, sempre tratando os mais diversos aspectos, dos antecedentes, passando pelo impacto do evento na imprensa da época, até sua influência em outros países da...

Leia Mais!
Modernismo: o negro

Em novembro, o dia da Consciência Negra sempre leva o projeto Literatura Brasileira no XXI às potências afros de nossa cultura literária. No caso específico da Semana de Arte Moderna de 1922, é fato que os negros eram poucos na audiência, e mesmo na proa do Movimento Modernista predominava a gen...

Leia Mais!
A (anti)festa do manifesto

Outubro marca alguns fatos decisivos da história brasileira. O mês testemunhou, por exemplo, a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas contra as oligarquias agrárias; a eleição turbulenta de Juscelino Kubitschek em 1955; a promulgação da Constituição de 1988, resposta da sociedade à...

Leia Mais!
Modernista e cristão

O projeto Literatura Brasileira no XXI joga luz sobre algo que, de tão óbvio, é pouco abordado: o modernista, em regra, era profundamente cristão. Tal se dá por vários ângulos, a começar da formação católica de quase todos. Assim, para além dos que se alardearam convertidos, como Murilo Men...

Leia Mais!
Modernismo veste

O projeto Literatura Brasileira no XXI destaca algo às vezes esquecido quando pensamos em arte: com que roupa um artista andava ou como o figurino compunha sua imagem publica? Na década de 1920, quando o vestir era algo antes personalizado que industrial, os trajes codificavam classes sociais, traduz...

Leia Mais!
América Latino-Modernista

O projeto Literatura Brasileira no XXI descortina o modernismo em língua espanhola pelas Américas. Antes da Semana de 1922, países próximos e às vezes fronteiriços já chamavam a arte que produziam de modernista. O escritor nicaraguense Rubén Dário empregava o termo desde 1888. Ano da Lei Á...

Leia Mais!